10# CULTURA 23.10.13

	10#1 BEATLE 2.0
	10#2 UM LITERATO EM CAMPO MINADO
	10#3 PERTO DA VERDADE
	10#4 EM CARTAZ  CINEMA - NA FRONTEIRA DA LEI
	10#5 EM CARTAZ  LIVROS - O MARAVILHOSO MUNDO DOS POSTS
	10#6 EM CARTAZ  TEATRO - FAMLIA NO PALCO
	10#7 EM CARTAZ - UM AMOR KITSCH  HBO  TELEVISO
	10#8 EM CARTAZ  MSICA - ELETRNICA COM MUITAS VOZES
	10#9 EM CARTAZ  AGENDA - GENET/BLACKLIST/JEAN MANZON

10#1 BEATLE 2.0
Em "New", primeiro disco de inditas de Paul McCartney em seis anos, o roqueiro adere s redes sociais e convida os produtores de Adele e Amy Winehouse para renovar o seu som 
Ivan Claudio

Aos 71 anos e quase seis dcadas de consagrao absoluta, o ex-beatle Paul McCartney poderia cruzar os braos e agir como os amigos de gerao: gravar seguidos songbooks ou, ento, escrever uma biografia. Vivendo um novo casamento (com Nancy Shevell, desde 2011) e aparentando ter muito menos idade, Macca, como  conhecido, quer soar jovem. Ao lanar um CD de inditas em seis anos, no busca apenas se renovar musicalmente mas se adequar ao novo ambiente da internet, das redes sociais e da interatividade. Do design da capa (que foge do retrato de terno e gravata e traz uma obra de arte mininalista) s 13 faixas (uma  surpresa), passando por toda a estratgia de lanamento, o lbum, que no por acaso se chama New (novo), foi concebido para colocar o cantor na linha de frente do atual cenrio musical. 

 Pela primeira vez, McCartney conversou com os fs pelo Twitter e o resultado o deixou radiante como uma criana frente a um brinquedo novo: Estou surpreso, exultante e muito feliz por atrair esse pblico lindo e jovem, disse ao se despedir, depois de uma hora de chat.

Com cinco netos, o mais velho entrando na adolescncia, o roqueiro quer se comunicar com a juventude  e sua equipe de publicitrios s merece elogios. Aps 33 fotos no Instagram, cuja conta existe h um ms e meio, Macca soma 27 mil seguidores que repercutem bem os seus posts. No dia 6, uma semana antes do lanamento do novo trabalho, ele convidou os fs de Los Angeles e Nova York para uma audio especial por meio da hashtag #McCartneydrivein. Os escolhidos ouviram as msicas dentro de carros, estratgia do prprio McCartney, que achou a acstica perfeita depois de conferir as novas canes dirigindo em Londres. 

 A imerso foi aprovada. Paralelamente, o msico tem se apresentado em festivais tipicamente indies, como Bonnaroo, Coachella e iHeartRadio. Esse ltimo  promovido pela empresa de outdoors Clear Channel, encarregada do lanamento global do novo CD em 30 cidades de 18 pases, winclusive em smartphones.

A guinada do ex-beatle para o mundo 2.0 comeou h seis anos, quando ele foi o primeiro msico a romper o contrato com uma major da indstria fonogrfica e assinar com a rede de cafs Starbucks em joint-venture com o selo Concord. De olho nas mudanas no mundo da msica, Macca passou a observar artistas que estavam dando o que falar. Entre os preferidos de sua playlist pontuavam os mais recentes trabalhos dos rappers Kanye West e Jay-Z e das bandas de rock The National e The Civil Wars, cuja vocalista, ao saber disso na citada entrevista no Twitter, escreveu na hora um post em agradecimento. Foi com esse esprito aberto a novidades que ele entrou no estdio (cinco ao todo, incluindo o antolgico Abbey Road), com um CD demo trazendo 22 faixas esboadas apenas em voz e violo. Para dar acabamento s canes (sete ficaram de fora), McCartney convidou quatro dos mais requisitados  e jovens  produtores da atualidade: Mark Ronson (do disco Back to Black, de Amy Winehouse, vencedor de cinco Grammy e com 20 milhes de cpias vendidas), Paul Epworth (do disco 21, de Adele, seis Grammy, 25 milhes de cpias vendidas), Giles Martin (filho de George Martin, o quinto beatle) e Ethan Johns (filho de Glyn Johns, parceiro na antiga banda Wings).

O resultado  flagrante j na abertura do disco com Save Us (produo de Epworth), cujas guitarras afiadas lembram o estilo dos meninos do Strokes. Mais surpreendente, Appreciate (produo de Martin), tem um clima hip-hop. Quando toco o CD para os amigos eles duvidam de que sou eu, disse o msico. Em homenagem, os pupilos incluram aqui e ali referncias ao som dos Beatles e, para no entregar totalmente o jogo, Macca s usou instrumentos vintage  mas a sonoridade retr, ele sabe,  hoje o que existe de mais moderno.


10#2 UM LITERATO EM CAMPO MINADO
Volta s livrarias, depois de 18 anos, o timo romance "Mina R", de Roberto de Mello e Souza, que participou da Campanha da Itlia como um capito especializado em desarmar explosivos
Ivan Claudio

Entre os livros dedicados  participao do Brasil na Segunda Guerra Mundial, o romance Mina R (Ouro Sobre Azul) destaca-se por ser uma das poucas e muito bem escritas  obras de fico conhecidas sobre o perodo. Entenda-se fico porque as situaes e os personagens foram reinventados, mas a narrativa poderia facilmente ser classificada como um relato pessoal de envergadura histrica. Seu autor, Roberto de Mello e Souza (1921-2007), irmo do crtico literrio Antonio Candido, integrou a Fora Expedicionria Brasileira (FEB) e atuou em toda a Campanha da Itlia como cabo em um batalho encarregado de desarmar minas. Vem da o ttulo do livro, que no se refere, como se poderia imaginar, a alguma garota italiana entre as muitas que nossos pracinhas encontravam perdidas pela regio dos Apeninos. A mina R em questo  um tipo de artefato contendo 5 kg de dinamite e poder de impacto de 180 kg, tido na poca como o mais perigoso de todos  e  o enfrentamento do protagonista com a arma letal que mantm o suspense e a tenso da obra.

Assim descreve o narrador a atividade precisa e solitria de limpar o caminho para a passagem das tropas: Acho que quando voc desarma mina a guerra fica sendo s sua e que cada mina  uma guerra que voc ganha. Sozinho. Escrito num estilo que mistura a linguagem cotidiana com tcnicas elaboradas, como o fluxo da conscincia e a mistura de vozes e tempos, o romance foca o lado cotidiano do conflito, tipo de olhar que cada vez ganha mais valor na historiografia. Especialmente no caso da participao da FEB, ao conferir a justa medida de sua especificidade, tida como secundria. Entre passagens fortes como a morte de um soldado do qual s restou o tronco aps uma saraivada de estilhaos ou bem-humoradas a exemplo da pegadinha feita a um arrogante militar americano, sobram detalhes anedticos. Um exemplo: chamar de boi branco o medo que acomete os soldados numa noite erma. O silncio no front  um trem muito diferente desse aqui que a gente est acostumado.(...)  um silncio assim muito engatilhado, escreve o autor.  


10#3 PERTO DA VERDADE
Biografia traz indcios inditos sobre a possibilidade de Juscelino Kubitschek ter sido assassinado
Ana Weiss

Acima, o ex-presidente observa a Igreja Nossa Senhora da Candelria, no Rio 

Uma concluso para as causas da morte do ex-presidente Juscelino Kubitschek pode estar prxima. A Comisso Nacional da Verdade reabriu no final do ano passado as investigaes que apuram as circunstncias do desastre de carro que matou JK, em agosto de 1976, na Rodovia Presidente Dutra, quando, na fase mais reclusa e deprimida de sua vida, viajava para o Rio de Janeiro onde encontraria a amante, Maria Lcia Pedroso. A primeira-dama, Sarah, acabara de pedir o divrcio. De acordo com o dirio encontrado no local do acidente, Juscelino se sentia humilhado pelas represlias que sofria do governo militar, que o tinha como inimigo. Estava triste por no ter conseguido uma cadeira na Academia Brasileira de Letras, a nica eleio que perdeu na vida. O que ocorreu por influncia do governo Geisel.

 A morte foi oficializada como acidente, mas Sarah Kubitschek morreu em 1996 com a certeza de que o marido fora assassinado. Tambm permaneceram com essa convico parceiros de trabalho e de exlio do mdico urologista que no queria entrar para a poltica. Nos anos 2000 uma nova abertura das investigaes preservou a hiptese de acidente.

Acima, capa do livro de Ronaldo Costa Couto, que h 12 anos acompanha de perto os mistrios em torno da morte de JK.

O livro O Essencial de Juscelino Kubitschek (Planeta), do historiador Ronaldo Costa Couto, rene essas informaes e chega s livrarias com mais lenha para a velha fogueira. O pesquisador, autor de Braslia Kubitschek de Oliveira  base da minissrie JK, exibida pela Rede Globo em 2006 , acompanha de perto as investigaes h 12 anos e acredita que a ltima pea desse quebra-cabea seja a nova exumao do corpo do motorista Geraldo Ribeiro. Pela tese do assassinato, Ribeiro, ao volante na ocasio, teria sido atingido por um tiro e jogado o Opala com capota de vime na pista oposta, causando o desastre visto por testemunhas ouvidas pelo escritor. No houve preservao do local para a percia. Um dos documentos oficiais revela que as fotos do que sobrou do carro e dos corpos no foram anexadas ao laudo por ordens superiores. A morte de JK ainda busca um final. A menos que surja prova cabal de crime doloso,ela continuar sob sombra e suspeita.Mesmo que a Comisso da Verdade confirme a concluso da Comisso da Cmara, diz o autor.

 Era o tempo da Operao Condor, esquema dedicado  erradicao dos inimigos das ditaduras do Cone Sul. Costa Couto prefere no opinar sobre o veredicto. Mas enche o leitor de indcios que encaminham para a concluso do assassinato. Como a reproduo do trecho de carta  originalmente em papel timbradodo governo militar chileno de Augusto Pinochet  afirmando apoio a Ernesto Geisel nas aes contra conhecidos polticos social-democratas e democratas cristos. No documento, de agosto de 1975, Kubitschek era citado nominalmente.

Ao presidente Jimmy Carter, o general brasileiro teria dito, no mesmo perodo, que, antes da redemocratizao, ainda estava em vias de uma limpeza de terreno. Muitos militares se espantaram com a deciso de Ernesto Geisel de decretar luto nacional no dia do enterro do presidente que governou o Brasil entre 1956 e 1961, erguendo uma nova capital, Braslia, em 42 meses. O desenvolvimentismo dele acabou em bancarrota e o Brasil estava cambialmente insolvente quando Jnio tomou posse, diagnosticou o economista Roberto de Oliveira Campos, um dos autores do Plano de Metas. Os estertores da democracia brasileira encerrada pelo golpe militar apresentam o fim da ascenso de JK, o rfo descalo de Diamantina (que, j  frente do Pas, tirava os sapatos sempre que podia).

Da ditadura para frente, o livro mostra um personagem abatido, que pensava no suicdio como uma sada para a perseguio poltica. , alis, da fase do exlio (1964 a 1967), o levantamento indito desse livro. Costa Couto descobriu de Maria Alice Berengas, secretria de JK durante sua estadia em Paris, que o ex-presidente no tinha privacidade, nem dentro do pequeno apartamento no Boulevard Lannes. Quando queramos dizer alguma coisa particular, abramos a janela e o presidente punha um rdio do lado, tocando (...) Aquilo era uma humilhao tremenda para ele, contou Maria Alice ao autor, secretrio de planejamento do governo de Tancredo Neves, amigo e parceiro poltico de Juscelino. As falas do prprio biografado revelam o tamanho do projeto de vida que JK levou a cabo at perder os direitos polticos.Uma historinha que gostava de contar mostrava dois pedreiros, um muito mais produtivo. Quando perguntaram ao mais lento o que fazia, este respondia, assentando tijolos. O mais veloz dizia que estava construindo uma catedral. Para alm dos motivos da morte de JK, at o fim era uma grande obra que ele via quando olhava para o futuro do Brasil.


10#4 EM CARTAZ  CINEMA - NA FRONTEIRA DA LEI
por Ivan Claudio

O autor ingls John Fowles dizia que fazer um romance  como nadar em um oceano e escrever um roteiro  como se debater em melao. Num caminho oposto, o vencedor do Pulitzer Cormac McCarthy resolveu criar o roteiro de O Conselheiro do Crime (em cartaz na sexta-feira 25) durante a pausa necessria entre dois romances. Autor de Esprito Selvagem, Onde os Fracos No Tm Vez e A Estrada, todos adaptados para o cinema, ele despertou o interesse de Ridley Scott para contar a histria de um advogado em crise de conscincia que aceita participar de negcios escusos na fronteira entre o Mxico e os EUA. Scott no economizou. Para dar vida aos personagens imaginados por Cormac, reuniu Brad Pitt, Cameron Diaz, Penlope Cruz, Michael Fassbender e Javier Bardem, impagvel na pele do almodovariano contraventor Reiner.

+5 filmes de Ridley Scott
BLADE RUNNER (FOTO)
 Na chuvosa Los Angeles de 2019, um policial caa replicantes revoltosos. De 1982,  um clssico contemporneo

OS DUELISTAS
 Com o fim das guerras napolenicas, dois oficiais se encontram para acertar as diferenas em um duelo de cavalheiros

ALIEN
 Eternizou Sigourney Weaver no papel da tenente que abriga no prprio corpo o embrio aliengena que invade sua nave

THELMA E LOUISE
 Garonete e dona de casa (Susan Sarandon, Geena Davis) se rebelam contra a monotonia

HANNIBAL
 Anthony Hopkins vive o canibal nesse suspense de 2001 que tem ainda Julianne Moore e Gary Oldman no elenco


10#5 EM CARTAZ  LIVROS - O MARAVILHOSO MUNDO DOS POSTS
por Ivan Claudio

Em Reproduo (Companhia das Letras), Bernardo Carvalho traz  baila seu desprezo pelas ambies contemporneas. O protagonista da histria  um reacionrio comentarista de blogs que tem como objetivo aprender chins para se preparar para a economia do futuro. Ao viajar para o pas dos sonhos, ele se v nas mos da polcia chinesa e revela atrocidades num ritmo que lembra a comunicao vertigionosa das redes sociais.


10#6 EM CARTAZ  TEATRO - FAMLIA NO PALCO
por Ivan Claudio
Na quarta montagem brasileira da pea Quem Tem Medo de Virginia Woolf? (Teatro dos Quatro, Rio de Janeiro, at maro de 2014), de Edward Albee, o clima familiar entra em cena: Daniel Dantas, um dos protagonistas, foi casado com Zez Polessa, com quem contracena, e  pai de Joo Polessa Dantas, o tradutor do texto. Eu e o Erom (Cordeiro) somos os nicos que no tm parentesco, diz o diretor Victor Garcia Peralta, lembrando que a outra atriz que completa o espetculo, Ana Kutner, foi enteada de Zez. A trama narra a histria de Marta (Zez) e Jorge (Dantas), que convidam o casal Nick (Cordeiro) e Mel (Ana) para a saideira, regada a lcool, ressentimentos e revelaes.


10#7 EM CARTAZ - UM AMOR KITSCH  HBO - TELEVISO
Recusado pelos estdios por causa da temtica gay e bancado pelo canal a cabo HBO, onde estreia no sbado 19, o filme Behind The Candelabra narra a relao entre o pianista Liberace e o namorado Scott Thorson, quarenta anos mais jovem. O diretor Steven Soderbergh declarou que, aps a experincia, abandonaria o cinema, mas foi retribudo recentemente com 11 prmios Emmy, o Oscar da televiso, inclusive o de melhor filme. Michael Douglas interpreta o pianista afetado e narcisista, que morreu de Aids em 1987, aos 68 anos, sem nunca ter assumido a homossexualidade. Matt Damon d vida a Thorson, o autor das memrias em que se baseou o filme. A dupla est impagvel.


10#8 EM CARTAZ  MSICA - ELETRNICA COM MUITAS VOZES
por Ivan Claudio

Superestrela da msica eletrnica, o DJ e multi-instrumentista Moby inventou um novo formato de CD: o disco de produtor em que soma a contribuio de uma srie de colaboradores, especialmente vocalistas, que do corpo s suas composies. Em Innocents essa frmula  aperfeioada porque, alm de cantores de diferentes backgrounds, ele convidou outro produtor para dividir as tarefas, Mark Spike Stent, que j trabalhou com Bjrk e Massive Attack. Menos danante e mais introspectivo, o disco segue o estilo orquestral de obras anteriores e rene um time invejvel no qual se destacam o roqueiro Mark Lannegan e o cantor folk Damien Jurado. Na faixa The Perfect Life o foco nos vocais vem acompanhado de um arranjo gospel com um coro de dez pessoas.


10#9 EM CARTAZ  AGENDA - GENET/BLACKLIST/JEAN MANZON
conhea os destaques da semana
por Ivan Claudio

GENET
 (Sesc Consolao, So Paulo, at 6/12) 
Ricardo Gelli interpreta o escritor francs nesse espetculo que funde passagens de suas peas e livros. A direo  de Sergio Ferrara

BLACKLIST 
 (Canal Sony, tera-feira, 21h)
 James Spader  Raymond Reddington, um criminoso que decide se entregar s autoridades e colaborar na priso de bandidos desde que s tenha contato com a agente Elizabeth Keen (Megan Boone)

JEAN MANZON
 (TV Brasil, 23h)
Apresentada por Ruy Castro, a srie Memria do Brasil apresenta 13 episdios com documentrios do cineasta francs que realizou cerca de 900 filmes no Pas

